Por Luciana GomesSe hoje o meio-de-rede Gustavo Endres é respeitado e admirado pelos italianos, isso nem sempre foi assim. Há cerca de 7 anos, quando o jogador realizou sua transferência para a Itália para defender sua primeira temporada por lá, houve certa resistência pelos dos donos da casa. Em parte, pois naquela época, o vôlei do Brasil ainda não havia conquistado tanto destaque no cenário mundial, e a seleção italiana ainda impunha grande respeito. Porém, com o passar do tempo, com os títulos e prêmios conquistados a história mudou de figura, e o central da seleção passou a ser visto com outros olhos. “No começo quando me transferi para Itália, não tinha muito respeito da parte deles. Muitos diziam – quem são esses jogadores que estão vindo do Brasil?”, afirmou o jogador, que acrescenta dizendo que somente a conquista dos títulos fez com que a receptividade mudasse, “com o tempo isso foi mudando, e eles começaram a ter mais respeito e até admiração”, completa Gustavo.  A primeira equipe defendida pelo brasileiro, foi o Ferrara, entre 2001 e 2003, de lá o jogador se transferiu para o Latina, onde jogou por uma temporada, para então ser contratado pelo Sisley Treviso, onde permanece até hoje. E foi justamente no Treviso, que ele obteve suas principais conquistas em solo italiano. E apesar das dificuldades enfrentadas no início de sua temporada na Itália, o saldo obtido em todos esses anos é extremamente positivo para o jogador. “Meu primeiro ano foi tudo muito difícil, mas mesmo assim conseguimos chegar na semifinal do campeonato italiano. Agora no Treviso foram duas conquistas do Italiano, duas da Copa Itália, e uma Champions League (campeonato europeu de clubes). Acredito que tenho muita sorte desse time ter me escolhido, e acredito que meu estilo de jogar casou bem com a equipe”, enfatiza o atacante. Como aconteceu com a maioria dos jogadores de sua geração, Gustavo sonhava em atuar pelo campeonato italiano, considerado por muitos, o melhor do mundo, e por isso, atrai atletas de todo o mundo. Com experiência de quem defende um clube italiano há tantas temporadas, Gustavo afirma que o nível do campeonato caiu muito nos últimos anos. “Acredito que o italiano está caindo muito, por isso, tem muitos jogadores saindo, já que o mercado internacional cresceu muito, como a Rússia, por exemplo. Aqui não é mais a mesma coisa de 5 ou 6 anos atrás, onde os melhores do mundo jogavam aqui”, porém o jogador acredita que ainda assim é válida a experiência de jogar pelo menos uma temporada na Europa. “Acredito que todo jogador tem que passar por isso, pois você cresce não só como jogador, mas como pessoa também.” Se por um lado essa “invasão” de estrangeiros trouxe experiência para os mesmos, teve um efeito colateral para os donos da casa, já que faltou espaço para a revelação de novos talentos nacionais, o que prejudicou a renovação da seleção italiana. De acordo com Gustavo, além disso, pesa o fato de não ter nenhum incentivo as categorias de base, como acontece no Brasil por exemplo. “Na Itália não existe nenhum tipo de incentivo aos mais jovens, os jogadores estão ficando velhos. Isso justifica o fato deles terem ido até a FIVB (Federação Internacional de Volley) pedir para diminuir o número de estrangeiros por equipe, para que esses jovens talentos tivessem oportunidade de jogar.” FUTURO Este ano a Família Endres planejava voltar ao Brasil. Houve inclusive propostas de clubes brasileiros para trazer o jogador de volta ao país, porém como o jogador ainda tinha dois anos de contrato a cumprir, o retorno não foi possível. Apesar disso, ele promete não medir esforços para tentar a volta no próximo ano. Se na Seleção Gustavo encerrou seus trabalhos, no vôlei ele pretende seguir atuando por alguns bons anos ainda. Mas e depois? O futuro sem dúvida estará ligado ao esporte. “Estou abrindo uma academia junto com minha esposa Raquel, mas pretendo continuar trabalhando com esporte. Se for no vôlei, melhor ainda. Quero fazer algum curso para ser técnico, ou dirigente... mas gostaria muito de continuar no voleibol”, afirma o jogador que terá uma única exigência para o futuro emprego: que seja um emprego em um local fixo. “Chega de viajar, dessa vez quero uma coisa fixa”, brinca o jogador. FAMÍLIA Enquanto Gustavo já pensa no que fará no seu futuro profissional, seu herdeiro, o primogênito da família, Eric Endres dá os primeiros passos no esporte, e ao contrário da vontade do paizão, o esporte escolhido foi o basquete. Ainda assim, Eric conta com total apoio dos pais, onde o importante não é a modalidade e sim a opção em praticar esporte. “O Eric chegou a treinar nas categorias de base do Treviso, quando tinha seis anos, mas ele não se divertia, não tinha empolgação. Resolvemos testar o basquete, e no primeiro dia ele se apaixonou. Me deu uma dor no coração, mas se é a vontade dele, tenho que respeitar.” Mas se num primeiro momento a opção de seu filho deixou o papai Gustavo triste, isso não durou muito, pois logo, o sentimento se transformou em orgulho. “O sorriso que ele demonstrou depois do primeiro treino vale mais que tudo, o orgulho é enorme e sempre que posso vou aos treinos dele.”
Casado há mais 12 anos com Raquel Endres, e pai de Eric e do caçula Enzo, quem conhece um pouco da história do jogador não consegue imaginá-lo sem ua esposa. Sempre juntos, Raquel acompanha o jogador sempre que possível nas viagens com a seleção, e nas temporadas na Itália, seguiu junto com os filhos para outro país. Toda essa dedicação e companheirismo transformou Gustavo em outra pessoa. “Ela é maravilhosa, sempre me apoiou muito. Por ser mais extrovertida me ajudou bastante a melhorar meu relacionamento com as pessoas, e com os fãs também. Acredito que tenho que retribuir todo o carinho que recebo, e ela me ajudou muito porque no início eu era muito frio, e ela me ensinou muito. Acredito que toda evolução que tive no vôlei tem relação com a evolução pessoal, e ela esteve sempre junto comigo nisso.” Além de acompanhar o marido, Raquel sempre se preocupou muito em colaborar com os fãs, seja com uma informação, uma foto, um e-mail. E Gustavo encara com naturalidade isso, e dá total apoio para que ela continue com esse tipo de relacionamento. “Tenho muito orgulho, e é algo que ela realmente gosta de fazer, manter esse contato com as fãs. A Raquel tem muito carinho por elas, e tenta atender a todas na medida do possível. E isso é importante para mim também, não só como jogador, mas como pessoa. Por tudo que ela passou, e teve apoio de todos os fãs que deram muita força pra nossa família.” Com o fim das olimpíadas de Pequim, Gustavo se despediu da seleção com a medalha de prata e o título de melhor bloqueador do mundo. A vida continua, e a família Endres segue sua rotina na Itália, para a disputa de mais uma temporada em Treviso. Fica a mais absoluta certeza de dever cumprido pela seleção, e o exemplo de mais um brasileiro que venceu lá fora. Fotos: Divulgação e Arquivo pessoal cedidas por Raquel Endres
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